A HIPOCRISIA NOSSA DE CADA DIA

Hipocrisia. Esta é uma das palavras que para mim melhor traduzem a pandemia do Coronavírus hoje. E é uma das que mais tenho usado ultimamente.

Era para a pandemia ser rápida, todos se prepararam para dois, três meses de duração, até porque a própria economia não foi feita para ficar parada por mais tempo. O brasileiro não tem a cultura de guardar dinheiro para tanto tempo. Nosso dinheiro sequer na média dura 30 dias. E avançamos para uma pandemia de mais de seis meses.

E no meio disso tudo o que aconteceu? O aumento da hipocrisia.

Pode não ser um tema agradável de se falar, mas é necessário. E eu me incluo também em atitudes hipócritas. Ninguém está livre da hipocrisia em seu dia a dia.

Eu por exemplo tentei levar uma vida normal. É claro que evitando certas coisas, principalmente no início da pandemia. Deixei de fazer várias atividades, como receber e ir visitar amigos, frequentar restaurantes e ir ao shopping. Mas continuo indo para o escritório da Verde Ghaia todos os dias, mesmo com meus colaboradores trabalhando em home office, continuo realizando algumas viagens a trabalho, fiz alguns encontros e raramente me lembro de passar álcool em gel nas mãos.

E eu ainda peco quanto ao uso da máscara. Eu só a uso quando preciso passar pela portaria do condomínio (e já a tiro logo e seguida) ou em locais que sou estritamente obrigado a portá-la.

Agora, na sociedade, vejo a hipocrisia em muitos outros lugares. Um exemplo está na extinção de outras mazelas, como se o Coronavírus tivesse matado toda e qualquer outra doença e só sobrasse ele hoje em dia. Os casos de dengue continuam aumentando demais em boa parte do Brasil, ela continua matando muitas pessoas, casos de Chikungunya e Zyka Vírus também estão crescendo e mortes continuam ocorrendo por causa dessas doenças. Mas sobre isso praticamente não se fala mais.

Além do esquecimento dessas outras doenças, há uma outra questão. Eu particularmente conheci umas vinte pessoas bem próximas a mim que se contaminaram por Covid. Felizmente todas tiveram reação de gripe, e nada além disso. A maioria delas respeitou ao máximo o isolamento social e mesmo assim se contaminaram.

Também conheço muitos atropelados, pessoas que morreram por AVC, câncer, que não tem nada a ver com o Coronavírus, mas que foram diagnosticadas com esta doença e ela foi a causa da morte. O porquê desse erro inaceitável ninguém sabe, mas tudo acabou virando Covid.

Em hospitais públicos se vê um verdadeiro caos. Boa parte deles pararam com cirurgias eletivas, disseram que continuam tratando câncer e problemas cardiovasculares mas vemos o aumento de casos de pessoas reclamando que não conseguem atendimento, não conseguem fazer exames, que estão há meses aguardando cirurgia e não conseguem vagas. Parece que só a Covid-19 está sendo tratada, sendo que as pessoas continuam ficando doentes, continuam tendo infarto, tendo câncer, tendo que sobreviver. Entretanto, se a gente for para os hospitais particulares eles estão cheio de vagas, os hospitais de campanha estão vazios e inclusive sendo desmontados.

A hipocrisia também está nos critérios de contágio do Coronavírus. Se é um vírus, é certo que ele é contagioso. O que muda de um vírus para outro são as formas de transmiti-lo e as taxas de transmissão. Mas o contágio é certo. Por isso eu acho que não faz sentido as milhares de decisões que foram tomadas em relação às regras de isolamento e distanciamento social.

Veja o caso da reabertura do comércio. Alguns podem abrir, outros não. Algumas cidades afrouxaram as regras e outras ainda restringem a reabertura de muitos estabelecimentos. Medidas (meio estranhas) foram inseridas para o comércio se manter aberto, mas basicamente tudo está funcionando como antes. Por exemplo, aqui em Belo Horizonte, o shopping só pode abrir das 11h às 17h. Poxa, mas será que não vai ter um volume maior de concentração de pessoas nesse horário porque você diminuiu o tempo de funcionamento? Ou o vírus contagia só depois das 17h? Sabemos que não é assim, por isso penso que a hipocrisia quanto a isso reina soberana.

As escolas em grande parte do Brasil ainda não podem abrir suas portas, mas os pais são obrigados a trabalharem presencialmente, não mais em home office. Por que essa diferenciação? Ou abre tudo, ou vamos manter o isolamento social. Diferente disso é hipocrisia.

Nesses seis meses de pandemia os governos tentaram manter as medidas de isolamento e distanciamento social, mas na prática a sociedade já não tinha mais condições de respeitá-las. A população precisava de dinheiro e teve que ir para a rua. E então começaram a chamar essa volta de “novo normal”.

Mas essa teoria do “novo normal” já está chata, porque no final todo mundo está tentando voltar ao “velho normal” faz tempo, mesmo que a pandemia ainda não tenha acabado. Na prática o que se vê são as ruas e estradas lotadas. Mesmo com todos os protocolos exigidos ninguém está dando conta de respeitar. Aliás, nem sei se estão tão interessados em respeitar. Na verdade, a gente acha que está resolvendo um problema mas está criando outro, porque os protocolos só serviram para complicar a cabeça das pessoas e de fato questionar a real necessidade de isolamento e distanciamento social.

E vou além. Talvez a pandemia serviu para deixar mais claro a desigualdade social do Brasil – e a hipocrisia que lhe dá força. O rico pode falar em ficar em casa, em manter distância, mas o trabalhador não tem essa opção, ele tem que ir para a rua. A classe média fica em casa mas quer a empregada ali, prestando serviço. Ela pode ficar em casa mas ele quer o delivery da sua comida. Assim, o “fica em casa” no final virou uma grande hipocrisia. E só serve para alguns poucos que podem se dar a esse luxo.

Eu acho que toda essa hipocrisia deveria acabar logo. Eu sou um apoiador fervoroso de que tudo volte ao normal, que os protocolos sejam rompidos e que a pandemia seja encerrada mesmo com os problemas que a gente sabe que vai enfrentar. Somente assim poderemos medir essa pandemia de verdade, porque hoje de fato ninguém sabe o que é verdade e o que é mentira.

No final a gente perdeu o senso, perdeu o termômetro de conseguir medir o que de fato é pandemia e o que foi uma grande oportunidade para fazer o dinheiro mudar de bolso. Porque nesses seis meses de Coronavírus no Brasil a gente já percebeu que o dinheiro de fato mudou de bolso. Muita gente que era rica deixou de ser, gente que não estava sendo vista acabou aparecendo e se destacando porque se aproveitaram do mundo digital, muitos outros surgiram fazendo atividades completamente novas.

Mas grande parte da população não. Principalmente aquela mais pobre. Ela passou a depender cada vez mais do governo ou da boa ação de outras pessoas. E se a gente andar pelos bairros e ver esta realidade muitas vezes tão distante de nós, vamos perceber que não é de agora que essas pessoas estão vivendo a hipocrisia. Desde muito tempo estão levando a vida normal imaginando o quanto somos hipócritas em mandá-las ficar em casa.

O que vale para uns poucos não vale para todos, e assim segue a hipocrisia nossa de cada dia.

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