MANIPULAÇÃO – O DILEMA DAS REDES

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Na década de 1920 ocorreu uma pandemia pouco falada, porém muito misteriosa, que matou cerca de um milhão de pessoas e deixou quase quatro milhões como “estátuas vivas” por muitos anos, incapazes de falar ou de se mover de forma independente. Essa doença atingia o cérebro, sendo chamada, por suas características, de encefalite letárgica ou “doença do sono”.

Até 1966 não havia muitas respostas sobre essa patologia. Então, Oliver Sacks, um jovem neurologista britânico, chegou ao Hospital Beth Abraham, no Bronx, em Nova York, e viu dezenas de pessoas como estátuas, imóveis, e perguntou: “o que está acontecendo? Tem alguém vivo lá dentro?”.

Este fato despertou minha curiosidade e logo imaginei que essa pergunta poderia ser feita para todos nós hoje em dia, que vivemos imersos no mundo digital respirando tecnologia. Comecei a pensar mais ainda se há alguém vivo dentro de nós quando assisti o documentário “O Dilema das Redes”, em exibição na Netflix. Eu indico a todos que o assistam também porque ele suscita muitas questões, inclusive éticas, que devemos considerar em nosso uso diário das mídias sociais.

Entre tantos pontos que são apresentados no documentário, um que me chamou a atenção foi sobre a manipulação feita pelas grandes empresas de tecnologia sobre os seus usuários. Ou seja, a manipulação que Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Google e outras mídias sociais fazem conosco todos os dias.

A verdade é que somos como marionetes em suas mãos, ou como ratos de laboratório, cujo objetivo é nos fazer ficar o máximo de tempo possível olhando para uma tela, conectados, porque é essa atenção obtida que os fazem lucrar – e muito – através de anúncios direcionados.

O jeito que foi desenvolvida a própria linha do tempo das redes sociais remete a uma máquina caça-níquel. Esse movimento foi cuidadosamente pensado como uma técnica de design. Além disso, como podemos nos cansar fácil e querer algo novo, é só rolar o dedo ao contrário que o conteúdo muda, aparecendo o que há de mais novo das nossas redes em nosso feed. Absolutamente tudo é feito para tornar a tecnologia mais persuasiva, deixando de ser uma mera ferramenta, que fica ali à espera para ser usada, para se tornar um vício e um meio de manipulação.

O que é recomendado pelo YouTube também é pensado exatamente de tal forma que nos interessemos por determinados assuntos. Os vídeos que aparecem como recomendados não estão ali à toa, muito menos os anúncios ali existentes.

Quando fazemos uma pesquisa no Google, os resultados que vão aparecer para cada um de nós são baseados em nossos interesses e localização. Por isso, duas pessoas próximas podem fazer a mesma busca e os resultados vão divergir. Faça o teste e depois me conte sobre isso.

É o uso puro da psicologia contra nós mesmos. É a inteligência artificial sendo usada para nos superar e descobrir como atrair a nossa atenção para aquilo que os anunciantes querem em vez daquilo que condiz com nossos objetivos, valores e nossas vidas. E assim, através do digital, é possível afetar emoções e comportamentos do mundo real, gerando benefícios apenas para pouquíssimas pessoas.

Aliás, os interesses das empresas sempre são colocados como prioridade, em detrimento do bem-estar dos usuários. Não existe nenhuma proteção para nós internautas, mas existe proteção para os direitos e privilégios dessas empresas gigantes e incrivelmente ricas.

E por quê? Uma das respostas pode estar em uma teoria aceita no Vale do Silício e que é apresentada no documentário. Esta teoria diz que toda essa manipulação feita pelas mídias sociais está criando um super cérebro global e os seus usuários, considerados neurônios, trocam informações. E estes neurônios não tem valor, apenas servem para alimentar o cérebro gigante. Isso significa que nós, meros neurônios, passamos a ser unicamente um elemento da computação, programáveis, manipuláveis. E seguimos fazendo parte inconscientemente de um modelo de negócio de sucesso, cuja base é a extração da nossa atenção.

Claro que tudo isso tem um preço, e o que é feito no online está afetando o offline. A partir da manipulação até do conteúdo do que vamos ver ao rolar os dedos sobre a tela do nosso smartphone, acabou o pouco que poderia existir da nossa privacidade, nossa autonomia e, numa escala maior, até com a democracia do nosso país por meio da disseminação de fake news e polarização política.

Vivenciamos uma época de excesso de exposição com vistas à aprovação social e usamos as mídias sociais como “chupetas digitais” quando nos sentimos mal. Esse comportamento está atordoando a nossa habilidade de lidar com as coisas e com as pessoas. Aliás, dada a importância desse assunto eu estou preparando novos textos sobre ele, para que eu possa aprofundar melhor sobre todos estes pontos que escrevi aqui.

Enfim, estamos viciados em tecnologia. Tanto que tente imaginar quanto tempo você consegue ficar sem celular. Quando você recebe uma notificação, você consegue ignorá-la e seguir normalmente o que estava fazendo? Quanto do seu dia você passa conectado à internet? Não parece que estamos em estado letárgico também, que nosso cérebro está dormindo e que para nos sentirmos bem, “vivos”, alimentados no ego, precisamos das mídias sociais?

Por isso quando li sobre a doença do sono logo associei ao “O Dilema das Redes”. As mídias sociais nos manipulam, nos transformam em estátuas vivas, nos deixam num estado no qual perdemos nossa autonomia e independência. Vejo que cada vez mais vivemos conectados através da internet, mas na vida real estamos cada dia mais sozinhos, estranhos muitas vezes a nós mesmos.

E qual a solução que acharam para a doença do sono? A musicoterapia. Quando havia música perto dos pacientes, eles ficavam mentalmente presentes novamente, mesmo sem conseguir falar. Havia sido tentado um medicamento, mas só deu resultado por poucos meses. A grande solução mesmo foi a música.

Agora, para as mídias sociais, qual o remédio? Existe solução? Tem alguém vivo aí dentro de você ainda?

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