O MITO DA PRIVACIDADE

A primeira temporada de Black Mirror tem um episódio interessante, chamado “The Entire History of You”, que apresenta a tecnologia de um microchip, implantado atrás da orelha das pessoas. Este microchip grava tudo o que é visto ou ouvido para que a memória possa ser reproduzida pelos seus portadores quantas vezes quiserem diretamente nos próprios olhos ou em um monitor de vídeo.

Este é um bom exemplo de perda da privacidade e do uso de nossas informações pessoais por parte de empresas privadas e do governo para nos controlarem e tomarem decisões. Por exemplo, no episódio que citei, Liam, o personagem principal, passa por uma entrevista de emprego. Para decidirem pela sua contratação, seus entrevistadores pedem se podem olhar seus arquivos de memória. O mesmo acontece com um segurança quando Liam pega o voo de volta para sua casa, para verificar se pode ou não ser feito o embarque.

Mas a tecnologia tem seus limites. Liam não aguentou saber que foi traído ou em ter que conviver com a dúvida se o seu filho é realmente seu ou se é fruto de traição. E assim o episódio acaba com ele próprio retirando seu microchip, mesmo sabendo que com isso perderá também as boas lembranças que possui.

Black Mirror é uma obra de ficção mas serve para nos fazer refletir sobre o uso da tecnologia e seus limites éticos. Eu não duvido que em um futuro próximo teremos implantes semelhantes em nossas cabeças. Até porque o limite entre ficção e realidade na era da tecnologia é muito tênue. Elon Musk não me deixa mentir. Uma de suas mais importantes e atuais apostas é a Neuralink. Este seu projeto foi apresentado no final de agosto, e consistia basicamente em mostrar um porco “saudável e feliz”, segundo a concepção de Musk, cujo implante tornou seus processos mentais legíveis por um computador.

O objetivo da Neuralink seria ler e escrever atividades cerebrais por meio de eletrodos inseridos em pequena cavidade no crânio, possibilitando que fossem apresentadas soluções para condições neurológicas, como perda de memória, audição ou visão, e até doenças como depressão e ansiedade. Ela também seria capaz de enviar informações ao cérebro, estimulando neurônios e induzindo reações aos impulsos elétricos.

Na realidade sabemos que a Neuralink é muito mais que isso, já que o próprio Musk afirmou que desejava criar uma forma de integrar a inteligência humana com a artificial, literalmente conectando o cérebro ao computador. Assim seria possível democratizar a inteligência artificial porque tornaríamos uma IA coletiva.

Experimentar primeiro em porcos e agora a busca por voluntários humanos levanta uma questão muito importante. Se os nossos cérebros estiverem conectados – pela Neuralink – e pudessem trocar experiências diretas, o que seria da linguagem? O que seria dos nossos pensamentos, aqueles que não falamos para ninguém? O que seria da nossa privacidade? Da nossa autonomia, da nossa individualidade?

Black Mirror na ficção mostrou o que é ter um implante na cabeça em relação às nossas memórias. Elon Musk traz essa discussão para a realidade, com planos de conectar aparelhos aos cérebros humanos em 12 meses. É ousado? Sim. Impossível? Com certeza não.

E tanto é possível que o documentário “O Dilema das Redes”, exibido na Netflix, demonstra, através da fala de gênios que estiveram por trás do desenvolvimento de grandes empresas de tecnologia, que já vivemos uma grande perda de privacidade, mesmo sem nos darmos conta. E não precisamos de um chip implantado em nossas cabeças não. Basta acessar o Facebook, Instagram, Twitter, Google ou YouTube, por exemplo.

Tudo o que fazemos nas mídias sociais fica registrado nos bancos de dados dessas empresas. Nossa localização, nossos gostos, o que compramos ou deixamos no carrinho de compras de um site, nosso posicionamento político, religioso, nossas preferências sexuais.

Pense quantas vezes você já falou algo perto de seu celular, ou fez buscas sobre um determinado produto, e de repente começaram a surgir anúncios do que foi falado ou pesquisado. Isso é a inteligência artificial, que através de algoritmos controla tudo o que vemos. A ideia é para nos manterem o máximo de tempo possível conectados e dar a falsa sensação de controle, sendo que na verdade estamos perdendo a nossa privacidade, autonomia e independência.

Eticamente falando, estas empresas usarem nossa privacidade para ganhar dinheiro não é nada certo. Mas é desse jeito que estas empresas lucram. Pior ainda é saber que um bilionário está investindo parte de sua fortuna em um projeto para conectar nossos cérebros a computadores, que ao mesmo tempo pode tanto ler nossas mentes como também controlá-la, até implantando pensamentos desejados para agirmos conforme o interesse de quem está “pagando”.

Não estou julgando como ruim uma inovação como esta. Apenas estou destacando a necessidade de estabelecer limites a estas tecnologias, porque é certo que surgirão novas normas de dependência e controle social da nossa parte. E assim a privacidade não passará de um mero mito.

E agora eu quero saber de você. Com o avanço da tecnologia e com o crescimento das mídias sociais em todo o mundo, você acredita que a privacidade é um mito ou ainda podemos achar que resta algo de privado em nossas vidas?

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