O VÍCIO DA TECNOLOGIA

“Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: as de drogas e as de software”. –  Edward Tufte

 

Esta frase está no documentário “O Dilema das Redes”, na Netflix. Não é novidade que esse documentário me chamou muito a atenção, tanto que já escrevi dois textos sobre ele, um referente à manipulação e outro que trata da perda da privacidade causada pelas mídias sociais.

Só que ainda há muito a ser falado, como por exemplo sobre o vício em tecnologia. Quando se trata da internet, é chamado de cibervício. Quando envolve o medo de ficar sem o celular ou qualquer outro tipo de aparelho eletrônico, o nome dado é nomofobia. Esses transtornos são relativamente recentes, tendo surgido pelas mudanças e avanços tecnológicos da sociedade.

Seja pela internet ou pelo celular, atualmente estamos nos tornando dependentes digitais. Somos usuários de algo que não nos damos conta e negamos na maioria das vezes.

Ironicamente tanta gente tenta se cuidar ao máximo em não ter nenhum vício, até se orgulham desse feito, porém vivem grudados em seus smartphones. Ou seja, são tão viciados quanto um usuário de droga, porém o vício está nas mídias sociais, que chegam a dar o mesmo prazer e satisfação de outras drogas.

O jeito que foi construído o modelo de negócio do Facebook, Google, Twitter, Instagram e YouTube, por exemplo, foi todo pensado para nos viciar. Eles foram desenvolvidos por gênios da mudança de comportamento cujo objetivo era tornar a tecnologia mais persuasiva, para implantar na gente um hábito inconsciente com a finalidade de tornar-se um vício e um meio de manipulação, porque quanto mais nos mantemos conectados, mais estas empresas lucram.

O sucesso dessa empreitada foi tanto que hoje somos viciados em mídias sociais e nem nos damos conta. Até negamos veementemente se formos acusados de “um absurdo desse”. Mas pense comigo e reflita:

Quanto tempo você consegue escutar seu celular vibrar e não olhar para ver o que é?

Você consegue ignorar uma notificação no celular?

A primeira coisa que você faz antes de levantar da cama é olhar seu smartphone?

Você vive carregando seu celular para nunca ficar sem bateria?

Você a todo momento fica checando suas redes sociais, e-mails, mensagens?

Quando o sinal de internet cai, você se irrita, se desespera, fica nervoso?

Quanto tempo você passa desconectado da internet e conectado ao mundo real?

Lembre-se: não é somente o tempo que você passa conectado que define a sua dependência digital. Mas principalmente a perda de controle sobre a tecnologia. E perder o controle significa querer estar cada vez mais conectado para obter mais prazer e satisfação, assim como é no caso de uma droga. E se você não se conecta o sentimento pode ser o mesmo de uma crise de abstinência. Portanto, o assunto é muito mais sério do que imaginamos.

Além disso, existem outros problemas trazidos pelo vício em tecnologia. Ao buscar ficar cada vez mais conectados – e contando com a ajuda das próprias mídias sociais para ganhar nossa atenção – vamos ficando cada vez mais sozinhos e ansiosos, vivendo cada vez mais imersos no mundo virtual, sem compartilhar momentos reais.

Deixamos de conversar com nossos amigos ao nosso lado ou na mesma mesa para mexer no celular, chegamos em algum lugar e a primeira coisa que fazemos é pedir a senha de wi-fi, tiramos fotos de cada prato e postamos, antes mesmo de experimentar o sabor, fazemos selfies e stories a todo momento, mesmo que isso só interesse a nós próprios, ficamos pedindo curtidas e comentários em nossas publicações, deixamos um trabalho de lado ou fazemos mal feito apenas para voltar a olhar o feed do Facebook ou Instagram.

As mídias sociais viciam, e viciam porque facilitam a conexão com as pessoas, mesmo que virtualmente. E essa conexão libera dopamina. Mas não percebemos que as mídias sociais que nos fornecem doses rápidas de dopamina são as mesmas que determinam aquilo que vemos e que assumem o controle da nossa autoestima e do nosso senso de identidade.

A tecnologia não vai acabar, ela vai cada vez mais se integrar nas nossas vidas, os algoritmos vão ficar melhores em descobrir o que nos mantém presos às telas. Os ciberviciados irão aumentar em número, assim como os nomofóbicos.

Ainda não existem um “ciberviciados anônimos” ou “nomofóbicos anônimos” para vencer o vício da tecnologia, mas deveria ter. Pois somente assim talvez possamos entender que a tecnologia por si só é excelente, porém ela precisa ser nossa aliada, não a nossa droga.

E você, acredita no poder viciante das mídias sociais, da internet, da tecnologia?

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