OS SENTIDOS DE UMA VIAGEM

Imagine um lugar que você sonha em conhecer mais que ainda não foi possível. Pense no jeito desse local, as cores, se houver as construções, as pessoas, as comidas, os sons, seja da natureza, do mar, dos carros, das pessoas falando, a temperatura de onde você está, imagine a areia da praia tocando seu corpo, o aconchego de uma cama, os sabores de um delicioso café da manhã..

Você pode imaginar detalhes do que ainda não conheceu, porque viu por fotos, pela internet, porque alguém te contou, não importa.

Você pode ver e até ouvir o local, mas tem uma coisa que é impossível você fazer se não estiver realmente no lugar: sentir seu cheiro verdadeiro. Os aromas específicos de cada lugar, seus cheiros, isso só vivenciando é possível saber quais são.

Tem uma cena do filme “Gênio indomável”, entre Robin Willians e Matt Damon, que eu adoro muito. Nela, Robin Willians, psiquiatra, questiona que Damon pode ser um gênio, contar vantagem, imaginar que sabe tudo, mas entre tantas coisas, ele nunca saberá qual é o cheiro da Capela Sistina, simplesmente porque ele nunca foi lá.

E isso cabe para todos nós. Você pode conhecer cada detalhe do teto, das pinturas, a história por trás de cada figura, mas sem visitá-la você nunca saberá qual o seu cheiro. Eu ainda não sei qual é, vocês sabem?

Mas ter visto essa cena me fez ter vontade de ir visitá-la. Ainda não foi possível, mas está em meus planos.

E o interessante é que depois de cada viagem sempre fico com o cheiro do lugar na minha mente. Assim, meus cinco sentidos são ativados ao me lembrar de qualquer local que já visitei. E guardar todas as sensações que já senti é um dos motivos que me faz sempre querer viajar, conhecer um lugar novo e até revisitar lugares especiais.

Existem coisas que por mais que as palavras tentem, que as imagens mostrem, que a internet tenta informar, não há como descrever. E tudo o que uma viagem proporciona é uma destas coisas. Especialmente o cheiro, que por mais que tentamos, é indescritível se nunca o vivenciamos.

Pense, quantas vezes você sente algo sem nem ver? Quantas vezes sentir o cheiro de um bolo saindo do forno te lembrou sua infância, sua vó, sua mãe? Ou aquele perfume te fez lembrar da pessoa que você gosta ou que já amou um dia?

O cheiro tem um papel fundamental para nossas lembranças e recordações. Podemos reviver momentos apenas sentindo aromas. Podemos nos reportar a momentos fantásticos em nossas vidas apenas por causa de um cheiro.

Daí a importância de viajarmos. Para reter essas informações, para termos histórias para contar, para recordarmos momentos bons de nossas vidas, para que possamos descobrir que nossas melhores memórias são formadas por mais do que nossos cinco sentidos.

Aliás, uma reportagem que saiu em 2017 na revista super interessante falou que nosso número total de sentidos pode oscilar entre 10 e 33 e são bastante maleáveis, complexos e interessantes. E que usamos eles, uns mais e outros menos, para saber que nós e o mundo existimos.

As 5 formas de perceber o mundo foi formulada pelo filósofo grego Aristóteles no século 4 a.C. Mas existe mais que isso, como acabei de falar. E quanto mais entendemos que existem dois mundos, o externo e o interno, mais compreendemos que podemos ativar nossos diferentes sentidos de várias formas.

Um ótimo motivo para testar seus sentidos para além dos cinco que conhecemos é viajar. Viajar está ficando cada vez menos complicado, porque o acesso às informações está mais fácil, a tecnologia simplificou muita coisa e as redes colaborativas tornaram tudo mais acessível.

E traz muitos benefícios. Por exemplo:

Conhecer um lugar diferente: entender como as pessoas vivem, quais as diferenças culturais e qual a história por trás de tudo isso.
Conhecer cheiros e sabores: o cheiro, como eu já falei, é algo que só estando no lugar para saber qual é. Por isso a vigem tem um papel tão importante neste caso. Viaje para conhecer a culinária local, passando do restaurante mais famoso até a barraquinha da rua. Vá para os mercados públicos (aliás, cada um tem um cheiro diferente, uma forma diferente, ingredientes diferentes..)
Ver paisagens novas.
Expandir horizontes: pessoas diferentes, de outros países e outras culturas significa ver pontos de vista distintos, aprender com as diferenças e descobrir que choques culturais podem ser interessantes, além de ser uma ótima maneira de abrir nossa cabeça. Assim viajar nos torna menos preconceituosos. Passamos a entender – e admirar – culturas que antes apenas julgávamos sem conhecer. Barreiras caem e nos tornamos mais tolerantes às diferenças e mais abertos para compreende-las.
Aprender um idioma.
Adquirir cultura: assim como acontece com os cheiros, ler sobre a história de um lugar não é a mesma coisa de conhecer este lugar. Saber tudo sobre o renascentismo nos livros de arte não lhe dá a mesma perspectiva do mundo do que ver a Monalisa de perto. Saber tudo sobre a história de Roma não é o mesmo de estar ali no Coliseu pessoalmente. Estar nos lugares cria uma conexão especial entre nós e o conhecimento, faz a gente se sentir parte daquela história. Ver formações que pareciam ser inventadas pelos livros de geografia, conhecer os cenários de grandes acontecimentos históricos e passar pelos mesmos lugares que grandes personagens estiveram não tem preço.
Para mudar um pouco de ambiente: Nas grandes cidades, a modernidade e as facilidades, muitas vezes, vêm atreladas a um sentimento de confinamento, estresse e alienação. Para escapar de tudo isso nada melhor do que fugir das cidades e recarregar as energias junto à natureza.
Se conhecer melhor: a princípio não parece ser bom, mas sair um pouco da zona de conforto de vez em quando é ótimo para saber como a gente lida com cada situação. Se desafie, busque fazer algo novo. Quanto mais você se testar, mais vai se descobrir. Porque sair é, muitas vezes, a melhor forma de nos encontrarmos – por mais irônico que possa parecer.
Ser uma pessoa mais interessante: viagens mudam uma pessoa. A gente volta vendo o mundo com outros olhos e com uma bagagem cheia de coisa nova. Cada experiência contribui para formar a nossa identidade. Também é uma ótima forma de desenvolver habilidades que nem você sabia que tinha, porque tem que lidar o tempo todo com improviso.
Para dar mais valor às coisas: porque damos muito mais valor quando perdemos, e viajar nos faz realmente agradecer a comida da mãe, os amigos por perto, o pão de queijo da padaria da esquina e até o nosso banheiro.
Para ser mais feliz: Há um estudo que diz que viajar faz pessoas mais felizes que bens materiais. Ele diz que um carro ou uma roupa, por exemplo, têm efeito momentâneo e em pouco tempo enjoamos, já a viagem deixa aprendizados e memórias eternas. A comparação por status também se torna mais difícil, uma vez que cada experiência é única e depende de muitos fatores.  Viagens ainda facilitam a aproximação à outras pessoas e alimentam o lado sociável que temos.

Portanto, se vale um conselho meu é esse: viaje para sentir o cheiro do lugar, para ativar todos os seus sentidos, para descobrir o mundo e se descobrir. Este motivo para viajar é muito mais do que apenas conhecer coisas ou usar a desculpa de sair de casa.

Porque viagem é a única coisa que compramos e que nos deixa mais ricos.

Porque é uma ótima forma de provar que você pode ir muito mais longe do que imagina.

Precisamos experimentar as coisas para realmente entendê-las. Não adianta fazer tour virtual, ler tudo sobre os pontos turísticos de um local, escutar os sons pela internet.. eu preciso ir até lá para entender e verdadeiramente conhecer o que é este lugar. Preciso tocar, preciso cheirar, preciso estar lá para de fato afirmar que eu o conheci.

Porque a emoção de estar num lugar que você sempre viu nos livros (e sonhou em estar) nunca vai poder ser descrita em palavras, fotos ou vídeos. Nenhuma tecnologia vai conseguir recriar essa sensação.

Quando viajamos, aceitamos a vida e aceitamos a nós mesmos. Viajar é uma possibilidade de nos reinventarmos, de descobrir uma felicidade escondida em nós. Depois de uma viagem, sempre voltamos um pouquinho diferentes, sempre melhores.

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