Barragem de Barão de Cocais: quando a história está prestes a se repetir (de novo)

Há exatos quatro meses eu escrevi sobre a tragédia de Brumadinho. Estava perplexo com o que aconteceu, custava a acreditar no rompimento daquela barragem, não podia aceitar que pela segunda vez a Vale estava envolvida em algo tão terrível para o meio ambiente e principalmente para o ser humano.

Hoje, escrevo novamente sobre a iminência de mais uma tragédia, mas agora de proporções muito maiores no quesito quantidade de rejeitos que vai destruir tudo o que encontrar pela frente. A barragem da mina Gongo Soco, que fica em Barão de Cocais, Minas Gerais, pode romper a qualquer momento. E ela também é da Vale.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), a movimentação do talude (encosta que garante estabilidade, é uma espécie de parede que segura uma rocha) chegou a 19 centímetros no sábado, a maior já registrada desde 2012. Em 10 dias, só para entender o real problema de rompimento, a estrutura passou a se movimentar de quatro a 16 centímetros a cada 24 horas. Na sexta, a movimentação estava em 16 centímetros.

Barão de Cocais tem cerca de 30 mil habitantes e está a 28 Km da barragem. Felizmente, estão fazendo treinamento com os moradores das proximidades que podem ser atingidos para o caso de uma emergência. As pessoas residentes na área de impacto imediato já foram evacuadas. O comércio da cidade está praticamente de portas fechadas.

Entretanto, de acordo com um estudo de impacto da Vale, a lama pode atingir também Santa Bárbara e São Gonçalo de Rio Abaixo. No total, calcula-se que em torno de 10 mil pessoas possam ser atingidas devido ao caminho dos rejeitos. Estão inclusive erguendo um muro de contenção entre a barragem de Barão de Cocais e a barragem para tentar deter o lamaçal “caso o pior aconteça”.

Há duas possibilidades: a primeira é de o talude ceder e não haver o deslocamento de uma rocha, não provocando o rompimento da barragem; e a segunda é de que a estrutura desmorone, a rocha se desprenda e a lama da represa de rejeitos atinja as cidades. Essa é a possibilidade do “pior cenário possível”.

Em nota, a Vale afirmou que, desde fevereiro, quando identificou o risco do talude da mina de Gongo Soco ceder, vem adotando todas as medidas preventivas para garantir a segurança da população.

Foi exatamente isso que me fez escrever novamente sobre esse assunto. Eu moro em Brumadinho. Ainda bem que minha casa não fica na área atingida. Mas eu vi de perto o que significou essa tragédia e também as consequências que trouxe para os habitantes do município, principalmente para aqueles que perderam seus entes queridos.

Além disso, sou CEO da Verde Ghaia, empresa fundada em 1999 que é especialista na assessoria e no monitoramento de conformidade legal. Eu vivo todos os dias, há mais de vinte anos, lidando com as normas e requisitos legais aplicáveis às atividades e processos de uma empresa.

Já fui incontáveis vezes pessoalmente em várias empresas para explicar os motivos pelos quais elas devem estar de acordo com as legislações e quais os benefícios que isso traz a elas e, consequentemente, para toda a sociedade e para o meio ambiente.

Demonstro com exemplos e vários cálculos que sai muito mais barato prevenir do que remediar. Não importa o tamanho que você tenha. Você pode identificar um possível risco, pode gerenciá-lo, pode evitar que ele aconteça, e isso sai dez, quinze, cem, um milhão de vezes mais barato do que consertar ele depois. Mas isso tem que ser feito já no início, não quando algo já está para acontecer.

Além disso, o princípio da prevenção é um dos pilares da legislação ambiental. Significa que devemos estar preparados para o pior, mesmo que o pior seja pouco provável.

Então eu leio que a Vale está tomando todas as medidas preventivas para garantir a segurança da população. Hoje, quando é iminente o rompimento da barragem. Por que não garantiu essa segurança antes? Por que não seguiu todas as legislações aplicáveis à atividade da mineração? Por que não foram feitas leis mais rígidas e fiscalizações mais sérias no que concerne à essa atividade, para impedir que se chegasse a esse ponto?

Concordo que agora a Vale está fazendo o que é possível. Mas, as pessoas que serão atingidas, que segurança elas terão se vão ver suas histórias e tudo o que possuíam serem cobertas por lama? Qual é esse conceito de “segurança” que a Vale quer que acreditemos? Parece até ironia, porque se eles prezassem tanta pela segurança do ser humano, essas barragens não estavam correndo o risco de romper a qualquer momento.

Bom, a única segurança que se tem é a incerteza. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Na hora que o alarme soar, ninguém sabe se vai ser suficiente o tempo de 1 hora e 12 minutos para a evacuação. Ninguém sabe se quando voltar para casa, vai encontrar tudo o que deixou às pressas.

Em Mariana foram 19 mortes e a pior tragédia ambiental do Brasil. Em Brumadinho foram 242 mortes confirmadas até o momento, e 28 pessoas continuam desaparecidas. E agora, Barão dos Cocais. É pouco tempo para tanta tragédia. Nenhuma delas era para ter acontecido. Nenhuma. Mas devido à questionáveis práticas de mineração e de baixos padrões de segurança observados nas barragens, elas aconteceram.

Vai acontecer pela terceira vez em quatro anos. Isso é inaceitável em qualquer lugar do mundo. Por que nós aceitamos?

Eu acredito que a mineração é uma atividade essencial para a economia brasileira, gerando muitos empregos. Ela pode, deve e vai continuar. Mas a técnica e o procedimento de construção das barragens têm de ser revistos. As leis têm de ser seguidas. As fiscalizações devem ser mais rígidas. Só assim será possível evitar que uma das histórias mais tristes do Brasil se repita novamente.