Se me perguntassem se era possível imaginar um incêndio na catedral de Notre-Dame, talvez diria que só em filmes e mesmo assim questionaria o porquê disso acontecer. Mas a realidade se mostra menos humilde que o cinema, e hoje o símbolo da cultura e da vida parisiense foi aos poucos virando combustível para as chamas que, colorindo o céu de negro, destruiu séculos de história.

Olhar para a catedral significa a materialização de diversos livros em minha frente. Ver seus vitrais, a cúpula do teto, as gárgulas, os vinte e oito reis esculpidos em detalhes na entrada, o som dos tubos do grande órgão gigantesco… não tem como não lembrar de Victor Hugo, que imortalizou essa magnífica catedral no livro “O corcunda de Notre-Dame”, em 1831.

Emmanuel Macron, presidente da França, resumiu bem o que significa a catedral: “A Notre-Dame de Paris é nossa história, nossa literatura, nosso imaginário. O lugar onde nós vivemos nossos grandes momentos, nossas epidemias, nossas guerras, nossa libertação”. Não é só da França não, os acontecimentos de lá reverberaram no mundo todo, e mesmo não sendo francês é impossível ser indiferente a algo tão assustador e triste.

Notre-Dame, ou Nossa Senhora de Paris, é daqueles lugares que permitem que você faça uma viagem pela história sem sair do lugar. Eu poderia passar horas olhando cada um de seus detalhes e mesmo assim me escapariam vários. Cada canto, dentro e fora, tinha algo a nos contar e também o poder de nos fazer esquecer um pouco do mundo atual, tão tecnológico, apressado, virtual e moderno. Não é à toa, são mais de 850 anos desde do início da sua construção.

Desde 1163, localizada na Île de la Cité, em Paris, e rodeada pelas águas do Rio Sena, a catedral de arquitetura gótica testemunhou importantes acontecimentos da história da França, conforme destacado por vários sites franceses e brasileiros, também pelo site oficial da Catedral de Notre-Dame:

  • O nascimento de 80 reis, 2 imperadores e 5 repúblicas;
  • Viu a França participar de duas guerras mundiais;
  • Na segunda guerra mundial, de acordo com historiadores, fez com que Hitler dissesse que podiam destruir tudo, menos Paris e Notre-Dame. Também foram seus famosos sinos que anunciaram a liberação da França da ocupação nazista;
  • Os cavaleiros na época das Cruzadas iam até ela para pedirem proteção antes de partirem para o Oriente;
  • Henrique VI, rei da Inglaterra, tendo apenas dez anos, foi coroado rei da França;
  • Napoleão Bonaparte foi coroado imperador dentro dela;
  • Viu seus vitrais coloridos serem trocados por cristais brancos no século XIII, porque achavam que as cores atrapalhavam as luzes – e hoje seus vitrais são considerados belíssimas obras de arte, juntamente com suas pinturas e estátuas;
  • Foi palco do casamento de muitos reis;
  • Viu a multidão subir em sua fachada durante a Revolução Francesa para destruir a cabeça de suas estátuas, tornando-se armazém de alimentos no período, sendo muito de seus tesouros roubados;
  • Por isso e por muito mais, recebe todo ano mais de 13 milhões de turistas de todo o mundo.

Notre-Dame demorou 180 anos para ficar pronta. Muitas vezes foi saqueada, teve seus vitrais quebrados, já esteve em ruínas, sua pintura deteriorada, e todas as vezes foi reconstruída. Inclusive ela estava sendo restaurada agora. Talvez isso que tenha ocasionado o incêndio, uma obra que estava sendo feita no telhado. Até o momento tudo é tratado como acidental.

Acidente ou não, é mais uma perda irreparável para a humanidade. Assim como foi com o palácio Paço de São Cristóvão, principal prédio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruído quase que por completo em setembro do ano passado.  Cerca de 90% do acervo de 20 milhões de itens de história natural e de importantes peças históricas que começaram a ser reunidas pela família real brasileira, foi completamente devorado pelas chamas e o teto desmoronou.

Muitas semelhanças são verificadas facilmente nos dois casos: mesma destruição da história, avisos de que havia deterioração nas construções, necessidade urgente de restauração e reformas: em Notre-Dame era calculado um custo de cerca de 150 milhões de euros (cerca de R$ 655,5 milhões, pela cotação atual). O Museu, que fez 200 anos, precisava de R$ 268,4 mil para manter suas atividades – o que não acontecia, devido aos cortes orçamentários que a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que era quem administrava o museu, sofria a cada ano, mal conseguindo pagar suas despesas fixas.

Em junho de 2018, três meses antes do incêndio, o Museu recebeu um investimento de R$ 21,7 milhões para o plano de revitalização do prédio histórico, seu acervo e espaços de exposição a fim de garantir mais segurança às coleções e reforçar o trabalho dos pesquisadores para aumentar a demanda de público, além de promover políticas educacionais vinculadas aos acervos. Era um valor baixo diante de Notre-Dame, e não foi suficiente para evitar a tragédia, porque talvez tenha chegado tarde demais. Será que esse atraso demonstra que estamos abandonando nossas origens e pouco se importando com nossa história?

Existe uma diferença crucial entre Notre-Dame e o Museu do Rio que me faz ficar mais perplexo e incrédulo diante de como nós, brasileiros, tratamos a história do nosso próprio país e do mundo. O incêndio em Paris mal foi contido totalmente ainda e uma família bilionária, família Pinault, proprietária do fundo de investimentos Artémis, prometeu 100 milhões de euros (o equivalente a R$ 438 milhões) para ajudar a reconstruir a catedral. O próprio presidente da empresa anunciou o montante. Aqui no Brasil, bom, ficou só escombros e o lamento por perder algo que cifra nenhuma consegue restaurar ou trazer de volta.

O incêndio da catedral de Notre-Dame de Paris é um marco da triste realidade da perda do patrimônio histórico e cultural reconhecido pela UNESCO. Um símbolo da França de oito séculos. Um livro, uma obra de arte, um epicentro das manifestações seculares. Um valor inestimável.

Entretanto, os meios de comunicação já noticiam que a estrutura da Notre-Dame está a salvo e totalmente preservada. Todas as obras de arte da catedral foram salvas, seu tesouro artístico está intacto. As 16 estátuas de cobre que ficavam no telhado foram removidas na semana passada para a restauração – as obras representam os apóstolos e os quatro evangelistas.

Devorada pelas chamas, esse dia dramático em Notre-Dame e sua cicatriz em Île de la Cité só pode resultar em um marco: esperança e renovação. Se ela sempre foi testemunha da história, é também da força, da esperança e do recomeço. Agora não será diferente. Espero que ao menos nisso o Brasil possa se espelhar.