No Brasil estão instaladas várias filiais de multinacionais. Samsung, Peugeot, Fiat, Nestlé, Coca-Cola, Dell, Ford, Volkswagen, Toyota, Sony, Electrolux, só para citar alguns exemplos. Esse tipo de empresa começou a ganhar importância no país no governo de Juscelino Kubitschek, de 1956 a 1961, quando foi aberta a economia nacional para o capital estrangeiro a fim de investir no setor industrial.

O que essas empresas fazem para se manter em terras brasileiras e crescer? Seguem seu próprio modelo. Se deu certo fora, é claro que dará aqui também. Mas não é bem assim. O que dá certo em um lugar pode não necessariamente funcionar em outro. Falo especificamente do modus operandi. Utilizar somente o que vem das matrizes de fora interpreto como um tipo preconceito, um descrédito quanto à mão de obra e criatividade brasileira, à nossa capacidade de produzir bons métodos de trabalho.

Mesmo sendo o presidente da Verde Ghaia, empresa especialista na assessoria e consultoria para gestão e monitoramento ambiental, eu também visito clientes para prestar consultoria. São nesses momentos que me deparo com algo curioso: somos contratados para dar consultorias aqui no Brasil em várias empresas multinacionais que usam esses procedimentos vindos de fora. Pela dificuldade de isso ocorrer, precisamos adequá-los ao contexto brasileiro. Adequar significa fazer modificações, alterações, algumas metodologias precisam ser diferentes, com métodos mais ágeis, outros processos devem ser simplificados para tornarem-se mais inteligentes.

Vou exemplificar com um caso que aconteceu comigo nesses últimos dias. Eu fui atender uma empresa produtora de eletroeletrônicos. É uma empresa americana, com sede nos EUA e uma unidade aqui no Brasil, muito grande, com alta capacidade. Só que a empresa é extremamente travada no que concerne a procedimentos e métodos relacionados a sistemas de gestão. Ela se vê obrigada a seguir o que é criado na matriz americana, procedimentos estes que não se aplicam à realidade brasileira. O que eles utilizam são apenas traduções do que existe no país deles, não considerando o local em que estão instalados. E traduções malfeitas ainda. No final, fica tudo parecendo uma colcha de retalhos que não condizem em nada com a realidade brasileira. Não se pode mexer em nada, por mais que seja necessário.

Inúmeras vezes já ouvi: “não, esse procedimento a gente não pode mexer porque é da matriz”. Ou, “esse procedimento a gente não pode mexer porque a matriz audita”, “esse procedimento não pode mexer porque o corporativo quer vir aqui e ver como funciona”. Mas, e se você precisar cumprir a lei brasileira e inserir questões específicas? Bom, nesse caso você pode incluir, criar um adendo, criar um novo procedimento, mas dizer ao corporativo que é obrigado a cumprir, ou seja, não tem lógica nisso. Não tem lógica porque as empresas estrangeiras que vem para o Brasil, teoricamente, são construídas aqui considerando questões culturais locais, formas de se fazer local, leis locais, mas ao mesmo tempo esbarram nesses procedimentos engessados e burocráticos e sem sintonia com a nossa realidade.

Voltando ao caso dessa empresa que fui dar consultoria, minha vontade era sair correndo de lá. Ela tinha procedimentos gigantescos, absurdos, traduções loucas dizendo a forma de se fazer – e que não eram feitas – mas que simplesmente não poderiam ser mudadas. E então eu fiquei me questionando: para que serve esses procedimentos? É só para mostrar para o corporativo? Para mostrar àquele americano que vai chegar aqui, que não conhece o contexto no qual a empresa está inserida, nem toda a legislação brasileira a que a atividade da organização está sujeita?

As especificidades de cada país precisam ser levadas em conta. Não adianta eu exigir procedimentos que remetam, por exemplo, ao cumprimento de determinadas leis se essas leis nem existem no Brasil. Ou vice-versa, porque podem existir leis brasileiras que exijam determinados métodos que não estão previstos nos países em que essas multinacionais possuem as suas filiais. Temos a mania de achar que tudo que vem de fora é melhor. Em alguns casos concordo, mas quando se trata de sistemas de gestão, é melhor aproveitar o nosso jeito de fazer as coisas. E claro, aprendendo com cases de sucesso, estudando metodologias desenvolvidas em outras países, mas tudo se adequando à nossa realidade.  

Acredito que essas multinacionais deveriam repensar melhor como elas administram as suas unidades em outros países que possuam suas filiais. Elas já dão resultados positivos, mas poderiam gerar muito mais e ainda facilitar o trabalho de todos os seus gestores, podendo focar melhor nas oportunidades e investir em outros pontos estratégicos para a empresa. Os resultados e o desempenho devem continuar a serem cobrados iguais, mas essa cobrança precisa considerar a capacidade local de empreender. O brasileiro tem uma capacidade incrível de criar métodos, de criar formas diferentes de fazer as coisas, de adaptar o que já existe para potencializar os resultados. Isso não é levado em conta pelas empresas que vem de fora. Eu as vejo muito travadas, muito presas, muito engessadas nessas formas corporativas pré-determinadas.

Enfim, fiz essa reflexão porque eu, ao estar na empresa que citei de exemplo, percebi que mesmo sendo obrigados a adotar todos aqueles procedimentos, isso não era feito de forma fácil, havendo inúmeras dificuldades no meio do caminho – e muitos descumprimentos também. Por isso, fui chamado para a consultoria, porque algo não estava tão bem quanto deveria estar.

Se já é tão difícil manter uma empresa para o Brasil, com tanta burocracia e tanta tributação no meio do caminho (não importa qual seja o seu tamanho, a carga tributária e a burocracia são sempre bem pesadas), por que colocar mais obstáculos para um maior crescimento? Por que já não buscar se adequar desde o início ao contexto brasileiro no que se refere a sistemas de gestão? Com certeza muitos problemas poderiam ser evitados, haveria maior agilidade nos processos e eficiência para atingir resultados.

Acredito sim que deve haver uma padronização nos procedimentos para que tudo não vire uma bagunça, pois uma multinacional atua em diversos países e é preciso que haja um entendimento comum do que e como deve ser feito. Mas que tudo isso seja mais focado nos resultados e desempenho e não engessando processos e métodos, dizendo “é assim e deu”.

E vocês, o que pensam sobre esse assunto? Conhecem outros casos semelhantes ao meu ou já tiveram experiências diferentes com multinacionais? Conte aqui para mim, porque esse assunto me interessa – e me instiga – bastante!

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